GI Joe 60 anos! – Parte 2
Dando sequência às matérias comemorativas aos 60 anos do lançamento do GI Joe, vamos tratar dos anos 70, a época em que o GI Joe deixou as trincheiras para viver outras aventuras com outra diversidade de equipamentos e figuras, fugindo dos movimentos antimilitaristas da época e tentando se manter atrativo para seu público alvo, mas sem causar qualquer tido de dúvida nos pais.
Os Aventureiros
Em 1969 o GI Joe deixa de ser um brinquedo totalmente militar para abraçar a aventura. Como a Guerra do Vietnã, a luta pelos direitos civis e as repressões policiais mostradas constantemente, inclusive as repressões contra os protestos antiguerra, trouxeram muitas sombras à imagem da polícia como um todo, chegou-se a conclusão que o brinquedo tinha que mudar sua imagem, mas manter suas raízes. Isso levou a uma série de aventuras com ênfase no desafio ao perigo, à natureza, busca de mistérios, espionagem e as mais diversas ações. A fonte de muitas dessas aventuras eram o cinema e a TV, com suas séries.
Para isso, se criou o Adventure Team, o Time Aventura e os action se tornaram adventuer, assim temos o Adventurer Commander, Land Adventurer, o Sea Adventurer, o Air Adventurer, o Man of Action e o Adventurer Commander e o afro, Adventurer (respectivamente, Comandante Aventureiro, Aventureiro Terrestre, Aventureiro Marinho, Aventureiro Aéreo, Comandante Aventureiro e Aventureiro).
Assim, se fecha a questão de o GI Joe poder ter aventuras na terra, na água e no ar, em qualquer lugar do planeta, tornando ilimitado o campo de atuação e, assim como o GI Joe militar, não deixar flancos expostos à concorrência. Lançaram a base do AT e diversos veículos e as aventuras em cartelas e caixas se diversificaram, inclusive com a inclusão de animais exóticos, como a arraia martelo e até mesmo o yeti e o saskatch.
Desde 66 p GI Joe era licenciado pela Palitoy Ltd no Reino Unido com o nome de Action Man. De certa forma, tudo que foi lançado pela Hasbro, foi lançado lá sob a nova marca. Mas a Palitoy também inovou em várias coisas e criou outras. Uma delas foi a criação do cabelo flocado. Então, quando o Adventure Team foi lançado em 1970, trouxe essa inovação que a Palitoy criou e a Hasbro achou muito legal sob o “life-like hair and berad”, o cabelo e barba como os da vida real, em tradução livre. E sim, trouxe a barba, algo que, como boneco militar, não tinha, mas como aventureiro era permitido e servia para mostrar o rompimento com a rigidez militar.
Ainda trazia a mão tradicional e, essa mão, verdade seja dita, não ajudava muito nas aventuras. Então, em 1974, trouxeram outra inovação da Palitoy: o Kung-Fu Grip, a pegada do Kung Fu. Isso inovação trazia as mãos que agarram e isso facilitou todas as aventuras com a possibilidade de realmente segurar armas e ferramentas, volantes e manches e tudo mais. E a coleção manteve o fôlego.
Mas a vida dos fabricantes de brinquedo como um todo não foi fácil nos anos 70. Um dos mais graves acontecimentos da época foi a crise do petróleo.
Veja: as vendas iam bem até 73, realmente o Adventure Team, AT, foi bem aceito com sua proposta. Mas em 73, depois que foi divulgada a verdade que o petróleo é um bem não renovável e que em um período de 70 anos iria acabar, o preço disparou. Inclusive o preço disparou pois os países produtores de petróleo criaram a OPEP, o Organização dos Países Produtores de Petróleo que, na prática, é um cartel que se prontificou em valorizar seu produto. Vale a regra de mercado das comodities: o preço varia conforme a oferta. Então a OPEP, ainda hoje, reduz a produção quando quer um preço mais alto, diminuindo a disponibilidade e, a ocontrário, aumenta a produção quando deseja redução dos preços. O medo da escassez criou uma redução de produção e os preços se elevaram. Se no começo da década, o barril de petróleo custava cerca de 10 dólares, no final custava 50. Houve escassez, houve racionamento, preços dispararam e, se você não sabe, plástico é derivado de petróleo. E o GI Joe original leva um bocado de plástico.
Assim, a Hasbro, para cortar tanto seus custos quando manter preços baixos para não perder vendas, refez a engenharia do corpo do GI Joe e criou em 1975 o que conhecemos como muscle body, o corpo musculoso. Esse corpo era uma casca mais fina e oca, reduzindo o plástico total e o peso da figura, inclusive. Muitos consideram isso uma queda na qualidade, mas não deixa de ser uma inovação criativa.
Ainda em 1975, devido a não conseguir a licença para produzir as figuras do Six Million Dollar Man, o Homem de Seis Milhões de Dólares, a Hasbro não podia deixar de embarcar no sucesso da série de TV e criou seu próprio herói biônico para o AT, Mike Power, o Atomic Man. Também veio um super-herói, o Bullet Man. Faziam uma certa diferença já que, até o momento, tanto os aventureiros quando os militares não tinham nomes, eram apenas as funções que exerciam. E outra coisa: até o momento, nunca houve, em território estadunidense, um inimigo para o GI Joe, somente os soldados e os aventureiros e então, para enfrentar esses heróis que agora tinham nome, surgem The Intrudres – Strongmen from another world, Os Intrusos – Homens fortes de outro mundo, um grupo de homens das cavernas alienígenas que serviam de contraponto aos aventureiros.
Em 1976 a outra inovação britânica: Eagle Eyes, os olhos de águia. A Palitou criou uma cabeça com um mecanismo interno que movia os olhos da figura para a esquerda e a direta mediante um movimento de alavanca na nuca.
Mas 1976 foi o ano de encerramento da coleção em virtude das inúmeras dificuldades da época para um brinquedo caro como o GI Joe.
O GI Joe Muscle Body com a mãos em Kung-Fu Grip mais o Life-like Hear and Bear e, mais tarde, com os Eagle Eyes, se tornou a base para o licenciamento do produto pela Estrela no Brasil, como o Falcon, 1977. Mas essa história está em outro artigo para você se inteirar aqui, ó. Os Olhos de Águia chegam aqui com o Falcon 80, no final de 1979.
O encerramento dessa época foi em 1977 com o Super Joe, um GI Joe numa escala menor, de 9 polegadas, com uma pegada mais futurista, embarcando na onda de Star Wars, mas a coleção não vingou e se encerrou em 78, colocando o GI Joe na geladeira, sem saber se voltaria, inclusive pela Hasbro estar passando por dificuldades tão grandes, como grande parte da indústria mundial, mas principalmente nos EUA, que esteve à beira da falência. Essa crise econômica nos EUA no final dos anos 70 foi, em parte, pela crise do petróleo e outra parte pela conta da Guerra do Vietnã ter chegado: o país gastou muito para manter suas políticas de intervenção e passou por um período de recessão, entre outros motivos. Assim, brinquedos se tornaram um produto supérfluo e somente os mais baratos ou muito criativos se salvaram, o que aconteceu com a linha Star Wars, o grande bum da época, com suas figuras de 3 ¾” e ´podendo ter uma coleção toda por um custo menor.
Essa coleção Star Wars seria a inspiração para o grande retorno do GI Joe nos Anos 80. Mas isso é assunto para a terceira parte dessa saga.
Fontes:
Livros
The Complete Encyclopedia to G.I.Joe. Santelmo, Vincent. KP Books, 1993.
Páginas
https://mundodasmarcas.blogspot.com/2006/08/hasbro-making-world-smile.html
https://dcf.fm/pt/blogs/blog/has-history-mission-ownership
https://en.wikipedia.org/wiki/G.I._Joe#:~:text=Stan%20Weston's%20original%20design%20(1963),-Original%20G.I.%20Joe&text=The%20original%20idea%20for%20the,of%20a%20military%20action%20figure.
Documentários
The Story Of America's Movable Fighting Man, Mitch Lieding, 2002
Brinquedos Que Marcam Época (The Toys That Made Us). Netflix, 2019
Brinquedos Que Mudaram o Mundo (The Toys That Built America). History Channel, 2021
E as vozes na minha cabeça, claro.
ZAP